« Et vois le temps après la pluie Tu vois, on se remet de tout Crois-moi, si l'amour est parti Dis toi que l'amour est partout »
Anda de braço dado com o amado pelas aléias do jardim.
Pássaros cantam à beira do regato, ou empoleirados nos galhos mais baixos das árvores ao alcance da mão: gorjeios penetram os ouvidos e tocam no fundo da alma. Um céu de raro azul, onde rolam algodoadas nuvens brancas, ruído choroso das águas batendo no fundo do tanque por si só refresca.
O perfume dos lírios, jasmins e rosas como flechas, eleva-se ao azul e caí, definitivo, por sobre o casal, que, envolvido por tamanho esplendor, caminha cada vez mais devagar para não perder nenhum detalhe deste lugar de ímpar beleza. De repente, o amante sente que sua amada dá-lhe um aperto de mão mais forte que o usual. Ele fita-a. Param ambos. A doce face da moça cora-se. Ela sente uma fisgada na perna. Outra. Mais uma. Infinitos puxões sucedem-se. Os membros esverdeiam-se, o rosto ganha uma coloração amarelada; os caracóis dos cabelos tornam-se brancos. O desespero do outro é extremo. Cada vez mais as cores se intensificam. Ela não esboça movimento. Ramificam-se-lhe os pés que cravam-se ao solo.
Torna-se, afinal, a mais bela entre as suas. Um antigo sonho.
Pensava-se detentor de riquezas incalculáveis, senhor de terras e gentes, de tudo aquilo que olhasse e, com cobiça, quisesse para si. _ Que seja consagrado em meu louvor, poder e glória!, e tinha uma pedra ou um galho em seu nome. Outras vezes, com maior desejo de posse, sentenciava: _ Os rios que correm em direção ao norte e ao sul sejam doravante exclusivos para meus banhos! Os peixes que neles habitam façam-se súditos de meu reino. Que todos saibam que, de agora em diante, tudo isto me pertence. _ Quanto poder!, diziam todos que o viam. Fez-se rei do mundo, do real e do imaginário. Inverteu fábulas, contos e lendas; destituiu reis e príncipes que julgava incapazes. Nomeou também novos generais. Assim procedeu por anos. Aproximando-se a morte, disse ao primogênito: _ Tudo o que vês e tocas, e tudo o que pensas existir e aquilo que nem supões é teu, meu filho. Façam-se a partir de hoje todas as tuas vontades! E o jovem, muito atento às palavras do pai, também acreditou-se supremo.
O convívio era-lhe insuportável. Respirar do ar que entrava nos pulmões do outro, usar dos mesmos talheres ou dividir o sabonete, já parecia-lhe inconcebível. Como o odiava! O cheiro, misto de cachaça e suor, de coisa sebosa e maculada causava arrepios. Os roncos. Que martírio! Que desejo profundo de, pé ante pé caminhar na direção do outro e esganar-lhe.
A manhãs divididas, as tardes comuns; as noites diante da tevê. Tudo odioso. As carnes não se combinavam, o contato dos sexos, inexistente; a busca já não era a mesma, as palavras não existiam, mortas na tumba da boca. O pensamento contínuo no corpo odiado, quase obsessão. A fome de fazer mal, a necessidade de fazer mal, um mal que acalmasse, que tornasse a vida menos fastidioso, e menos turvas as águas onde banhava seus sonhos para que eles não padecessem das mesmas nódoas, mesmas chagas e saliva. O corpo ao lado numa cadência hedionda do respirar. Intolerável, absolutamente, intolerável! As horas demoravam a passar e cada vez mais o ar corrompia-se.
Muito cansada de tudo levantou-se da poltrona, caminhou em direção ao outro e, com um beijo, deu-lhe a primitiva forma de sapo.
“Je ferai un domaine Où l'amour sera roi Où l'amour sera loi Où tu seras reine"
Com as sobras de gesso que roubara do ateliê, fizera para si uma mulher.
Deu-lhe seios redondos e rijos como melões, desenhou-lhe olhos de musa impassível que nada fitava, mas de tudo sabia e que a todos cativava; talhou-lhe um sexo no qual todas as delícias estariam contidas para seu prazer.
Obra terminada, pôs-se a chorar: como far-lhe-ia a alma?
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