O Blog do Costaneto

31/08/2008

O Nascimento da Flor


« Et vois le temps après la pluie
Tu vois, on se remet de tout
Crois-moi, si l'amour est parti
Dis toi que l'amour est partout »



Anda de braço dado com o amado pelas aléias do jardim.

Pássaros cantam à beira do regato, ou empoleirados nos galhos mais baixos das árvores ao alcance da mão: gorjeios penetram os ouvidos e tocam no fundo da alma. Um céu de raro azul, onde rolam algodoadas nuvens brancas, ruído choroso das águas batendo no fundo do tanque por si só refresca.

O perfume dos lírios, jasmins e rosas como flechas, eleva-se ao azul e caí, definitivo, por sobre o casal, que, envolvido por tamanho esplendor, caminha cada vez mais devagar para não perder nenhum detalhe deste lugar de ímpar beleza. De repente, o amante sente que sua amada dá-lhe um aperto de mão mais forte que o usual. Ele fita-a. Param ambos. A doce face da moça cora-se. Ela sente uma fisgada na perna. Outra. Mais uma. Infinitos puxões sucedem-se. Os membros esverdeiam-se, o rosto ganha uma coloração amarelada; os caracóis dos cabelos tornam-se brancos. O desespero do outro é extremo. Cada vez mais as cores se intensificam. Ela não esboça movimento. Ramificam-se-lhe os pés que cravam-se ao solo.

Torna-se, afinal, a mais bela entre as suas. Um antigo sonho.


Costaneto,

1º Setembro 2008


Escrito por Costaneto às 21h04
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23/08/2008

Rose chantant "La Liste": superbe!


Escrito por Costaneto às 22h01
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22/08/2008

A loucura sim, era-lhe hereditária

 

Pensava-se detentor de riquezas incalculáveis, senhor de terras e gentes, de tudo aquilo que olhasse e, com cobiça, quisesse para si.
_ Que seja consagrado em meu louvor, poder e glória!, e tinha uma pedra ou um galho em seu nome.
 Outras vezes, com maior desejo de posse, sentenciava:
_ Os rios que correm em direção ao norte e ao sul sejam doravante exclusivos para meus banhos! Os peixes que neles habitam façam-se súditos de meu reino. Que todos saibam que, de agora em diante, tudo isto me pertence.
_ Quanto poder!, diziam todos que o viam.
 Fez-se rei do mundo, do real e do imaginário.
 Inverteu fábulas, contos e lendas; destituiu reis e príncipes que julgava incapazes. Nomeou também novos generais. Assim procedeu por anos.
 Aproximando-se a morte, disse ao primogênito:
_ Tudo o que vês e tocas, e tudo o que pensas existir e aquilo que nem supões é teu, meu filho. Façam-se a partir de hoje todas as tuas vontades!
 E o jovem, muito atento às palavras do pai, também acreditou-se supremo.

Costaneto,
15 julho 2008.


Escrito por Costaneto às 11h28
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21/08/2008

Uma frase:

"Os livros são objetos transcendentes

Nós podemos amá-los do amor táctil

que votamos aos maços de cigarros.

Domá-los, cultivá-los em aquários,

em estantes, gaiolas, em fogueiras,

ou lançá-los pra fora das janelas.

Talvez isso nos livre de lançar-mo-nos

_ou o que é muito pior, por odiar-mo-los

podemos simplesmente escrever um.

Encher de vãs palavras muitas páginas

e de mais confusão as prateleiras.

Tropeçava nos astros desastrada.

Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas"

 

Livros, Caetano Veloso.


Escrito por Costaneto às 10h49
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20/08/2008

E já não sentia senão o inverso de outrora

 

        O convívio era-lhe insuportável. Respirar do ar que entrava nos pulmões do outro, usar dos mesmos talheres ou dividir o sabonete, já parecia-lhe inconcebível. Como o odiava! O cheiro, misto de cachaça e suor, de coisa sebosa e maculada causava arrepios. Os roncos. Que martírio! Que desejo profundo de, pé ante pé caminhar na direção do outro e esganar-lhe.

        A manhãs divididas, as tardes comuns; as noites diante da tevê. Tudo odioso. As carnes não se combinavam, o contato dos sexos, inexistente; a busca já não era a mesma, as palavras não existiam, mortas na tumba da boca. O pensamento contínuo no corpo odiado, quase obsessão. A fome de fazer mal, a necessidade de fazer mal, um mal que acalmasse, que tornasse a vida menos fastidioso, e menos turvas as águas onde banhava seus sonhos para que eles não padecessem das mesmas nódoas, mesmas chagas e saliva. O corpo ao lado numa cadência hedionda do respirar. Intolerável, absolutamente, intolerável! As horas demoravam a passar e cada vez mais o ar corrompia-se.

       Muito cansada de tudo levantou-se da poltrona, caminhou em direção ao outro e, com um beijo, deu-lhe a primitiva forma de sapo.

 

14 julho 2008.

 


Escrito por poetacostaneto às 11h21
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Ananke

Para Sabina

  

Algo me diz que

dentro de um livro

mora um homem:

pessoa de carne e ossos, sexo

e fome.

 

Mas pode ser mulher

ou bicho.

Mas pode ser fato

_ factóide.

Mas pode ser o próprio poeta

(a enganar-se).

Mas é verbo, enfim.

 

E quantos livros mais...

Quantos homens mais...

 

Dentro dos livros

há uma humanidade

que caminha...


Escrito por poetacostaneto às 11h17
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Bilhete sem flores

 

Querida,

 

Acordei tarde ontem

(para ser mais preciso ao meio-dia;

não tenho vergonha, dormir assim

só para àqueles em paz consigo)

e com uma idéia fixa: mandar-te flores

_ não recente desejo. Acaso gosta de flores?

Subi a José Sena, dobrei à Dona Docha.

Dona Docha: sempre que venho aqui

tenho este nome na boca. Quem era?

Quem amou-a? Fora feliz? Devaneios...

Fui à avenida, pedi informações,

perguntei endereços.

Na única floricultura da cidade

podia haver de tudo, menos

a razão para justificar-lhe o nome.

Floricultura proibida para os atrasados.

Floricultura sem flores.

Floricultura de puro e exclusivo verde.

(Vede o verde: o verde sem os outros matizes

é só verde. Viste?)

Crise no setor, especulações financeiras

contra os apaixonados? Não sei, não sei.

“Isperemus prá semana e rezá prá chuvê”,

Disse-me a dona do desabastecido negócio.

Vencido, desisto, mesmo porque

as flores dos sentimentos são mais coloridas.

 

02 Janeiro 2008,

Conceição do Mato Dentro.

 


Escrito por poetacostaneto às 11h15
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Sobre mim

Para Júnia

 

 

Poderia contar das aventuras que tive.

Mas não tive nenhuma.

Falar de amor, não sei.

Compor versos, tocar violino e piano

muito menos.

Acumulo poemas em gavetas, pastas,

cantos escuros dentro de mim mesmo

para quem sabe um dia

Reconhecer-me em humana forma.

 

Começo um poema:

“Tive um amor e perdi.

Compus versos e rasguei

e dos lábios que toquei

não mais que amargor senti”.

 

São versos pobres e ocos,

São palavras. Mas o que são as palavras

diante do gesto, do ato e

até mesmo de um beijo?

 

 

14 julho 2008

 


Escrito por poetacostaneto às 11h13
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Mas faltava-lhe competência

para Silvia

 

Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine"

 

Com as sobras de gesso que roubara do ateliê, fizera para si uma mulher.

Deu-lhe seios redondos e rijos como melões, desenhou-lhe olhos de musa impassível que nada fitava, mas de tudo sabia e que a todos cativava; talhou-lhe um sexo no qual todas as delícias estariam contidas para seu prazer.

Obra terminada, pôs-se a chorar: como far-lhe-ia a alma?

11 Agosto 2008.


Escrito por poetacostaneto às 11h11
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17/08/2008

"Je suis de la race qui chante dans le supplice"

Essa frase é de um dos meus!...


Escrito por poetacostaneto às 11h43
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